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Professores já se preparam para ensinar as novas regras ortográficas

28-07-2008 00:00

“A frequência com que eles leem no voo é heroica!”. Ao que tudo indica, a frase inicial desse texto possui pelo menos quatro erros de ortografia. Mas a partir de janeiro de 2009, quando entra em vigor o 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa', ela estará corretíssima e os professores terão que ensinar seus alunos sobre essas novas regras.

Como já se sabe as mudanças só vão acontecer porque três dos oito membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ratificaram as regras gramaticais do documento proposto em 1990. Brasil e Cabo Verde já haviam assinado o acordo e esperavam a terceira adesão, que veio no final de 2007, em novembro, por São Tomé e Príncipe. Os países-irmãos Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste terão, enfim, uma única forma de escrever.

As regras já foram incorporadas ao idioma e inicia-se agora o período de transição no qual ministérios da educação, associações e academias de Letras, editores e produtores de materiais didáticos, no prazo de três anos, precisam adequar os livros, dicionários, etc. As escolas já estudam novas formas de ensinar seus alunos às novas regras ortográficas, principalmente, para aqueles que estão em processo de alfabetização.

Professores do ensino fundamental e médio revelam que não haverá grande dificuldade em adequar as novas regras, já que não altera profundamente o português que se ensina e que é utilizado no Brasil.

José Eduardo Botelho de Sena, professor de língua portuguesa da Escola Internacional de Alphaville acredita que as mudanças serão bem recebidas pelos alunos do ensino fundamental, mas para os alunos do ensino médio, inclusive os vestibulandos, pode surgir uma preocupação quanto adaptação das novas regras. “Não é um acordo que vai mudar a língua portuguesa, mas pode existir um temor entre os alunos do terceiro ano do ensino médio em torno das novas representações gráficas. Um aluno do primeiro ano, que aprenda agora, ao final dos três anos, estará absolutamente tranqüilo”, revela o professor.

Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6% do vocabulário de Portugal seja modificado. No Brasil, a mudança será bem menor: 0,45% das palavras terão a escrita alterada. Mas apesar as mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país.

 

O que mudou

As novas normas ortográficas farão com que os portugueses, por exemplo, deixem de escrever 'herva' e 'húmido' para escrever 'erva' e 'úmido'. Também desaparecem da língua escrita, em Portugal, o 'c' e o 'p' nas palavras onde ele não é pronunciado, como nas palavras 'acção', 'acto', 'adopção', 'baptismo', 'óptimo' e 'Egipto'.

Mas também os brasileiros terão que se acostumar com algumas mudanças que, a priori, parecem estranhas. As paroxítonas terminadas em 'o' duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo. Ao invés de 'abençôo', 'enjôo' ou 'vôo', os brasileiro terão que escrever 'abençoo', 'enjoo' e 'voo'.

Também não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos 'crer', 'dar', 'ler', 'ver' e seus decorrentes, ficando correta a grafia 'creem', 'deem', 'leem' e 'veem'.

O trema desaparece completamente. Estará correto escrever 'linguiça', 'sequência', 'frequência' e 'quinquênio' ao invés de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio.

O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação do 'k', do 'w' e do 'y' e o acento deixará de ser usado para diferenciar 'pára' (verbo) de 'para' (preposição).

Outras duas mudanças: criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como 'louvámos' em oposição a 'louvamos' e 'amámos' em oposição a 'amamos', além da eliminação do acento agudo nos ditongos abertos 'ei' e 'oi' de palavras paroxítonas, como 'assembléia', 'idéia', 'heróica' e 'jibóia'.

 

Antônio Houaiss

A escrita padronizada para todos os usuários do português foi um estandarte de Antônio Houaiss, um dos grandes homens de letras do Brasil contemporâneo, falecido em março de 1999. O filólogo considerava importante que todos os países lusófonos tivessem uma mesma ortografia. No seu livro 'Sugestões para uma política da língua', Antônio Houaiss defendia a essência de embasamentos comuns na variedade do português falado no Brasil e em Portugal.

 

Fontes para comentar o assunto

  • José Eduardo Botelho de Sena, professor de português do ensino fundamental e médio Escola Internacional de Alphaville.
  • Elaine Lavezzo, professora de redação e cultura internacional da Escola Internacional de Alphaville.
  • Norma Ragghianti Viscardi, diretora pedagógica da Escola Internacional. Tradutora-intérprete e pós-graduada em lingüística pela UNICAMP. É considerada uma das educadoras que mais entende de bilingüismo no Brasil.

Ver artigo original no site do Conselho das Câmaras Portuguesas no Brasil.

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